Quem está decidindo em que região do DF vai morar ouve a mesma frase em toda conversa: "aquela ali é perigosa". Quase sempre sem número atrás. E quando o número aparece, costuma ser o pior tipo de número, o total de ocorrências, que diz mais sobre o tamanho da população do que sobre o risco de quem mora lá.
Este texto não vai eleger a região mais segura do DF. Vai mostrar como ler o dado que já existe, é público e é atualizado todo mês, para você comparar as regiões que estão na sua lista.
01 A pergunta certa não é "qual região é segura"
Segurança não é uma nota única. Um bairro pode ser tranquilo para andar a pé e péssimo para deixar carro na rua. Outro pode ter pouco furto e concentrar roubo em transporte coletivo, o que só importa se você depende de ônibus.
Por isso a pergunta útil é outra: segura para quê, e para a rotina de quem? Quem vai de carro para a Esplanada e estaciona na rua tem um risco. Quem volta a pé do metrô às 22h tem outro. Os dois moram na mesma quadra.
02 O primeiro erro: comparar número absoluto
No primeiro semestre de 2026, Ceilândia registrou 833 roubos a transeunte e Águas Claras registrou 56. Parece uma diferença de quinze vezes. Só que Ceilândia tem 356.781 moradores projetados para 2026 e Águas Claras tem 131.440. São quase três vezes mais pessoas.
Corrigindo pela população, a distância continua existindo, mas encolhe para pouco mais de cinco vezes. É uma conclusão diferente, e é a que resiste. A conta é simples e você faz em qualquer planilha:
ocorrências ÷ população × 100.000 = taxa por 100 mil habitantes.
Sem essa correção, toda região populosa parece perigosa e toda região pequena parece um paraíso. O Sudoeste registrou 9 roubos a transeunte no semestre, o menor número da nossa lista, mas ele também é a menor RA da lista, com 58.687 moradores.
03 O que os dados de 2026 mostram, região por região
Abaixo, oito regiões administrativas que costumam entrar na lista de quem está chegando. Os dados são da SSP-DF, de janeiro a junho de 2026, e a população é a projeção da Codeplan para 2026. As taxas são cálculo nosso, por 100 mil habitantes, no semestre.
| Região | População 2026 | Roubo a transeunte (taxa) | Furto em veículo (taxa) |
|---|---|---|---|
| Sudoeste/Octogonal | 58.687 | 15,3 | 42,6 |
| Águas Claras | 131.440 | 42,6 | 68,5 |
| Guará | 148.812 | 57,8 | 45,0 |
| Vicente Pires | 85.208 | 71,6 | 36,4 |
| Taguatinga | 218.656 | 149,1 | 110,2 |
| Plano Piloto | 249.229 | 150,5 | 457,0 |
| Samambaia | 269.606 | 160,6 | 41,9 |
| Ceilândia | 356.781 | 233,5 | 49,9 |
Para referência, o DF inteiro fechou o semestre com taxa de 115,4 em roubo a transeunte e 71,2 em furto em veículo.
Olhe a tabela duas vezes, porque as duas colunas contam histórias diferentes. Ordenada por roubo a transeunte, Samambaia é a segunda pior. Ordenada por furto em veículo, Samambaia é a segunda melhor, abaixo da média do DF. Águas Claras faz o caminho inverso: ótima na primeira coluna, acima da média do DF na segunda.
É isso que significa dizer que não existe nota única. Trocar de região pode reduzir um risco e aumentar outro.
04 O caso do Plano Piloto: seguro para você, arriscado para o seu carro
O dado mais desproporcional do semestre está no Plano Piloto. Foram 1.139 furtos em veículo em seis meses, de um total de 2.330 em todo o Distrito Federal. Ou seja, uma região com 7,6% da população do DF concentrou 48,9% dos casos. A taxa, 457,0 por 100 mil, é 6,4 vezes a média do DF.
E no mesmo período, na mesma região, foram 5 roubos de veículo e 3 roubos em residência. Números baixíssimos.
A diferença entre furto e roubo explica o contraste, e ela é jurídica antes de ser estatística: roubo tem violência ou ameaça, furto não tem. O Plano Piloto é uma região com enorme fluxo diário de gente que trabalha ali e mora em outro lugar, com estacionamento aberto em superfície por toda parte. Isso produz muito furto de acessório e de objeto deixado dentro do carro, sem nenhum confronto.
Na prática, para quem vai morar ali: o risco relevante não é o assalto na porta de casa, é o vidro quebrado no estacionamento da quadra comercial. São problemas com soluções diferentes.
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Esta parte vale para quem for baixar os dados por conta própria, e ela quase estragou esta apuração.
A SSP-DF publica uma planilha por região administrativa. Os endereços seguem um padrão parecido, com o número da RA na frente. Só que o mesmo padrão de endereço devolve arquivos de anos diferentes conforme a região. Ao baixar a lista inteira de uma vez, a planilha de Taguatinga veio com o ano de 2023 fechado e a de Vicente Pires com 2024 fechado, enquanto as demais vieram com 2026 parcial.
Quem não conferir vai comparar doze meses de 2023 com seis meses de 2026 e concluir que Taguatinga tem quatro vezes mais roubo que o Plano Piloto. O dado correto de Taguatinga no mesmo semestre é 326, não 1.472.
A checagem leva dez segundos: abra a planilha e olhe a linha "COMPARATIVO MENSAL", que traz o ano. Confira também quantos meses têm valor preenchido, porque o mês corrente costuma entrar zerado antes de consolidar.
06 O que o dado não responde
Registro de ocorrência mede o que foi registrado, não o que aconteceu. Furto de baixo valor costuma não virar boletim, e essa subnotificação não é igual em todas as regiões.
Há mais três limites que importam na hora de decidir:
- A RA não é o bairro. Taguatinga e Ceilândia são enormes e internamente muito diferentes. A taxa da RA é uma média que esconde essa variação.
- Onde o crime acontece não é onde a vítima mora. Região com muito comércio e fluxo de passagem acumula ocorrência de gente que só estava passando por ali.
- Semestre é um recorte curto. Antes de tratar uma diferença pequena como tendência, olhe o mesmo período do ano anterior, que está publicado no mesmo lugar.
07 Como fazer sua própria comparação
- Liste no máximo quatro regiões. As que cabem no seu orçamento e no seu deslocamento. Segurança entra para desempatar, não para começar a lista.
- Baixe a planilha de cada uma no site da SSP-DF e confirme que todas são do mesmo ano e do mesmo número de meses.
- Escolha os dois ou três crimes que afetam a sua rotina. Anda a pé à noite, olhe roubo a transeunte. Deixa carro na rua, olhe furto em veículo. Depende de ônibus, olhe roubo em transporte coletivo.
- Converta tudo em taxa por 100 mil com a população da projeção da Codeplan.
- Vá até a quadra no horário que você usaria. O dado ordena a lista, mas não descreve a rua às 22h de terça.
08 Perguntas frequentes
Qual é a região mais segura do DF?
Depende do crime que importa para a sua rotina, e por isso não existe uma resposta única. Na nossa lista, no primeiro semestre de 2026, o Sudoeste/Octogonal teve a menor taxa de roubo a transeunte, 15,3 por 100 mil, e Vicente Pires teve a menor de furto em veículo, 36,4. São regiões diferentes.
Por que o Plano Piloto tem tanto furto em veículo?
Foram 1.139 casos em seis meses, 48,9% do total do DF, numa região com 7,6% da população. A explicação mais direta é o enorme fluxo diário de pessoas que trabalham ali sem morar ali, somado a estacionamento aberto em superfície. No mesmo período foram só 5 roubos de veículo, o que indica furto sem confronto, não assalto.
Onde encontro os dados oficiais por região administrativa?
No site da SSP-DF, na seção de dados por região administrativa, em PDF e planilha. Confira sempre o ano indicado na linha "COMPARATIVO MENSAL" dentro do arquivo, porque endereços parecidos devolvem anos diferentes.
Dá para confiar na taxa por 100 mil habitantes?
Ela é bem melhor que o número absoluto para comparar regiões de tamanhos diferentes, mas continua sendo uma média da região inteira. Ela ordena a sua lista e não substitui a visita ao endereço no horário real.
