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Custo de vida

Cesta básica por capital: quanto do salário mínimo ela consome

A mesma lista de compras do mês custa R$ 320 a mais em uma capital do que em outra. Quem ganha o mínimo trabalha 43 horas a mais para pagar por ela, e isso é mais de uma semana de trabalho.

Custo de vidaBarracas de feira livre com frutas e verduras expostas, e uma cliente escolhendo produtos no balcão.
Em resumo: em julho de 2026 a cesta básica mais cara do país foi a de São Paulo, R$ 915,01, e a mais barata foi a de Aracaju, R$ 594,07. São R$ 320,94 de diferença por mês na mesma compra, cerca de R$ 3.851 por ano. Medida em tempo, a distância é maior ainda: quem ganha o mínimo trabalha 124 horas em São Paulo e 80 em Aracaju para pagar a cesta. Na média das 27 capitais, ela come 49,34% do salário mínimo líquido. Em Brasília a cesta custou R$ 747,10, décimo segundo lugar, 49,83% do mínimo líquido. Os dados são da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do DIEESE em parceria com a Conab, divulgada em 10 de agosto de 2026.

Quem compara duas cidades antes de mudar compara aluguel, e às vezes transporte. Comida quase nunca entra na conta, porque parece que comida custa a mesma coisa em todo lugar.

Não custa. A mesma lista de arroz, feijão, carne, leite, café, óleo e pão varia mais de 50% de uma capital para outra. E ela não é um gasto de mudança, que você paga uma vez e esquece: é a compra de todo mês, pelo tempo inteiro em que você morar ali.

Este texto mostra onde a cesta pesa mais e menos no salário, com o dado oficial do DIEESE, explica uma armadilha de comparação que quase todo ranking ignora, e mostra como colocar esse número na sua decisão antes de escolher a cidade.

01 A régua, e a ressalva que muda o ranking

O número usado aqui é o da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, que o DIEESE faz mensalmente em parceria com a Conab. Ela mede o preço de um conjunto fixo de alimentos básicos, em quantidade suficiente para sustentar um trabalhador adulto durante um mês, nas 27 capitais do país.

Só que existe uma diferença metodológica que raramente aparece nas manchetes, e ela é decisiva para ler a tabela sem se enganar. A cesta pesquisada no Norte e no Nordeste não é a mesma cesta do Centro-Sul. Nessas capitais:

Isso não é erro do DIEESE, é o contrário: a cesta acompanha o hábito alimentar de cada região, que é o que faz sentido para medir alimentação real. Mas significa que comparar Aracaju com São Paulo não é comparar exatamente a mesma sacola. Parte da diferença de R$ 320 é preço, e parte é composição.

Onde a comparação é limpa: entre capitais da mesma região. São Paulo contra Porto Alegre é maçã com maçã. Recife contra Salvador também. São Paulo contra Recife pede a ressalva acima.

02 As cinco capitais onde a cesta pesa mais

Valores de julho de 2026, com o percentual sobre o salário mínimo líquido, ou seja, o mínimo de R$ 1.621,00 já descontados os 7,5% da Previdência:

CapitalValor da cesta% do mínimo líquidoHoras de trabalho
São PauloR$ 915,0161,02%124h11m
CuiabáR$ 881,2758,77%119h36m
FlorianópolisR$ 860,7357,40%116h49m
Rio de JaneiroR$ 855,3757,05%116h05m
Porto AlegreR$ 841,9456,15%114h16m

Em São Paulo, quem ganha o salário mínimo entrega 61 centavos de cada real líquido só para comer o básico. Sobram 39 para aluguel, transporte, luz, água, remédio e todo o resto. Não fecha, e é por isso que o número existe.

Repare que a lista de cima não é a lista das cidades pobres. São Paulo, Florianópolis, Rio e Porto Alegre estão entre as capitais de renda média mais alta do país. Cesta cara e cidade rica costumam andar juntas, o que é uma má notícia para quem se muda para uma delas ganhando o mesmo de antes.

03 E as cinco onde ela pesa menos

CapitalValor da cesta% do mínimo líquidoHoras de trabalho
AracajuR$ 594,0739,62%80h38m
MaceióR$ 618,6041,26%83h58m
NatalR$ 631,5142,12%85h43m
João PessoaR$ 644,0442,95%87h25m
SalvadorR$ 650,3243,37%88h16m

As cinco são do Nordeste, e aqui vale reler a ressalva do primeiro tópico: a cesta dessas capitais tem menos carne e não tem batata. A conta é honesta para medir o que aquela população come, e é imprecisa para responder "eu gastaria menos morando lá comendo a mesma coisa que como hoje".

Se você quer a resposta da segunda pergunta, o caminho é outro: pegue a sua própria lista de compras, com as marcas e as quantidades que você usa, e cote nos mercados da cidade nova. Leva uma tarde e responde o que nenhum ranking responde.

04 Quanto isso dá em reais e em horas

Ranking é abstrato. Em dinheiro, a distância entre o topo e a base da tabela fica assim:

OndePor mêsPor ano
AracajuR$ 594,07R$ 7.129
BrasíliaR$ 747,10R$ 8.965
São PauloR$ 915,01R$ 10.980

Entre Aracaju e São Paulo são R$ 320,94 por mês e cerca de R$ 3.851 por ano, na mesma compra do mês. Isso paga um aluguel inteiro em muita cidade brasileira.

A medida em tempo é mais desconfortável que a medida em dinheiro. O DIEESE calcula quantas horas de trabalho, no salário mínimo, são necessárias para pagar a cesta. Em julho de 2026, a média das 27 capitais foi de 100 horas e 24 minutos. Em São Paulo, 124 horas e 11 minutos. Em Aracaju, 80 horas e 38 minutos.

A diferença entre as duas pontas é de 43 horas e 33 minutos por mês. Numa jornada de 44 horas semanais, isso é praticamente uma semana inteira de trabalho a mais, todo mês, só para comprar comida.

05 Onde Brasília fica nessa tabela

A cesta de Brasília custou R$ 747,10 em julho de 2026, o que a coloca em décimo segundo lugar entre as 27 capitais. Não é das caras nem das baratas: é meio de tabela, e um pouco acima da média nacional em peso sobre o salário, com 49,83% contra os 49,34% da média.

Dois dados que mudam a leitura de quem está pensando em mudar para o DF:

Isso contraria a fama da cidade. Brasília é cara em moradia, e essa parte da fama é justa. Em comida, ela está no meio, e no último ano foi na direção contrária da maioria do país.

A conclusão prática não é "Brasília é barata". É que custo de vida não é um número só, e a cidade pode ser cara em um item e mediana em outro. Quem decide olhando só o aluguel decide com metade da conta.

06 Julho foi bom, o ano não foi

A manchete de agosto de 2026 foi que a cesta básica caiu em 26 das 27 capitais, com quedas puxadas por batata, tomate, café e açúcar. A única alta foi em São Luís, de 0,30%.

Só que a mesma pesquisa traz outro número, que quase não é citado: no acumulado de janeiro a julho de 2026, as 27 capitais registraram alta. A menor foi Campo Grande, com 4,28%. A maior foi Porto Velho, com 15,68%.

Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo. Julho foi um mês de safra boa, com mais oferta de batata e tomate no varejo, e isso derrubou o preço médio. O ano inteiro, mesmo assim, continua acima de onde começou.

A lição serve para além da comida: comparar um mês com o mês anterior é o jeito mais fácil de tirar a conclusão errada sobre tendência. Se você está montando um orçamento de mudança, use a média de doze meses, não a foto do mês.

07 O salário mínimo que precisaria existir

A Constituição diz que o salário mínimo deve dar conta de alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência de um trabalhador e da família dele. Partindo da cesta mais cara do país e dessa lista, o DIEESE calcula todo mês qual seria o valor necessário.

Em julho de 2026, esse valor foi de R$ 7.687,01, ou 4,74 vezes o mínimo vigente, que é de R$ 1.621,00. Em julho de 2025 a proporção era parecida, 4,79 vezes.

Não é uma proposta de política salarial, e o próprio DIEESE não a apresenta como tal. É uma régua: mostra a distância entre o que o mínimo é e o que a Constituição diz que ele deveria cobrir. E ajuda a entender por que, para quem ganha perto do piso, a escolha da cidade não é detalhe.

08 Como colocar isso na sua decisão

Três movimentos práticos, na ordem:

  1. Some a cesta ao aluguel, não compare só o aluguel. Um aluguel R$ 200 mais barato em uma cidade de cesta R$ 300 mais cara é um mau negócio disfarçado de bom.
  2. Multiplique por doze antes de decidir. R$ 320 por mês parece pequeno na planilha e são quase R$ 3.900 no ano, que é o custo de uma mudança inteira.
  3. Cote a sua lista, não a lista média. Se você tem restrição alimentar, criança pequena ou come muita proteína, a sua cesta não se parece com a do IBGE nem com a do DIEESE. Uma tarde cotando no site de um mercado da cidade nova vale mais que qualquer ranking, inclusive este.

E vale a regra que serve para toda decisão de mudança: não decida isso no susto. O custo da comida é o mais fácil de estimar antes, porque o dado é público e mensal. Deixar ele de fora é escolha, não falta de informação.

09 Perguntas frequentes

Qual capital tem a cesta básica mais cara do Brasil?

São Paulo, com R$ 915,01 em julho de 2026, segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do DIEESE em parceria com a Conab. Depois vêm Cuiabá com R$ 881,27, Florianópolis com R$ 860,73, Rio de Janeiro com R$ 855,37 e Porto Alegre com R$ 841,94.

Onde a cesta básica é mais barata?

Aracaju teve o menor valor em julho de 2026, R$ 594,07, seguida por Maceió com R$ 618,60, Natal com R$ 631,51, João Pessoa com R$ 644,04 e Salvador com R$ 650,32. É preciso uma ressalva: nas capitais do Norte e do Nordeste a composição da cesta pesquisada é diferente, com menos carne, farinha de mandioca no lugar da farinha de trigo e sem batata. Parte da diferença de preço vem daí, e não só do custo de vida local.

Quanto custa a cesta básica em Brasília?

R$ 747,10 em julho de 2026, o que coloca Brasília em décimo segundo lugar entre as 27 capitais pesquisadas. Isso consome 49,83% do salário mínimo líquido e equivale a 101 horas e 24 minutos de trabalho. Brasília é uma das poucas capitais onde a cesta ficou mais barata na comparação com julho de 2025, com queda de 1,46%.

Quanto do salário mínimo a cesta básica consome?

Na média das 27 capitais, 49,34% do salário mínimo líquido em julho de 2026, ou seja, quase metade. O cálculo do DIEESE usa o mínimo de R$ 1.621,00 já descontados os 7,5% da Previdência Social. Em São Paulo o percentual chega a 61,02% e em Aracaju fica em 39,62%.

A queda de julho de 2026 significa que a comida ficou mais barata no ano?

Não. A cesta caiu em 26 das 27 capitais entre junho e julho de 2026, mas no acumulado de janeiro a julho todas as 27 capitais registraram alta, com variações entre 4,28% em Campo Grande e 15,68% em Porto Velho. Um mês bom não desfaz o ano, e comparar apenas o mês anterior dá a impressão errada de tendência.

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